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[Correio] Entrevista com Roberto Sander

15/01/2014

[Correio] Entrevista com Roberto Sander

No ápice do verão carioca de 1964, no dia 7 de janeiro, a francesa Brigitte Bardot, que acabara de filmar O Desprezo com Godard, chegava ao Rio para uma visita a turismo e causava enorme furor. Na mesma época, Jorge Ben Jor, ainda Jorge Ben, dominava as paradas nacionais comas canções de seu primeiro álbum, Samba Esquema Novo: Mas Que Nada, Chove Chuva e Por Causa de Você, Menina. Eram os hits do Verão. Também no Rio, em um show na boate Bottle’s, no tradicional Beco das Garrafas, Nara Leão mostrava a sua força como intérprete. Pouco depois, ousaria dar opiniões favoráveis à esquerda. O surfe engatinhava no Brasil e o australiano Peter Troy, que trazia as primeiras pranchas de fibra de vidro, revolucionava o esporte no país.

Embora o cenário daquele verão fosse animador, o que viria pela frente seria um dos períodos mais obscuros da história nacional: o governo militar, que seria instalado em abril daquele ano e permaneceria até 1985. Esse período que antecede o golpe é retratado no livro em 1964- O Verão do Golpe (Maquinária Editora/R$ 35/272 págs.), do carioca Roberto Sander, 55 anos, que foi repórter da Globo e SBT. Além do cenário cultural, o autor relata os bastidores das conspirações que derrubaram João Goulart. Defensor da democracia, Sander faz questão de lembrar que o que ocorreu não foi uma revolução: “O movimento que derrubou João Goulart feriu a legalidade. Isto já caracteriza um golpe. Já uma revolução é um processo em que se derruba um governo opressor”.

A visita de Brigitte Bardot em janeiro de 1964 mobilizou todo o Rio de Janeiro. O que representou a vinda de uma estrela ao país naquela época?

Brigitte Bardot, como digo no livro, era a única personalidade conhecida apenas por uma sigla: BB. Ela estava no auge do sucesso e escolheu o Rio para ser o primeiro país a conhecer fora da Europa,coma ilusão de aqui encontrar o sossego que não tinha mais por lá. Achava que o Brasil era um paraíso praiano, onde pudesse andar à vontade sem ser importunada. Mas o assédio foi imenso. Ela chegou até a ameaçar interromper a viagem se não a deixassem em paz. Acabou fazendo um acordo coma imprensa e fez uma sessão de fotos na sacada do Copacabana Palace. Hoje em dia talvez nem uma Madonna de férias por aqui causasse tanto furor.

Além de ter livros sobre política, o senhor publicou alguns sobre futebol. Afinal, de que maneira o futebol foi usado para ajudar a sustentar a ditadura militar?

Tenho um trabalho de resgate da memória esportiva. Principalmente na Copa de 1970, o regime militar se apropriou com muita habilidade do sucesso da Seleção, fazendo o possível para associar a sua imagem ao time de Pelé, Tostão & Cia. Marchas ufanistas foram criadas, como Pra Frente Brasil. O presidente Médici também se apropriou muito bem do futebol, estando sempre presente no Maracanã com seu radinho de pilha ao ouvido.

No livro, o senhor cita a importância do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, do baiano Glauber Rocha (1939-1981). Qual a relação entre essa obra e o contexto político da época?

O filme tem tudo a ver com a época. Ele mostra as condições miseráveis do homem do campo, do sertanejo, e a sua luta pela libertação, pela conquista de um pedaço de chão num ambiente hostil. Era justamente isso que o governo de João Goulart buscava. Ou seja, tal como no filme, no qual o sertanejo Manoel mata um coronel dono de terras, depois de ter sido enganado por ele, e se junta a um grupo religioso que lutava contra os grandes latifundiários, Jango se propunha a enfrentar as desigualdades que geravam fome e miséria, sobretudo no nordeste. Por isso, entre outros motivos, acabou sendo deposto.

Em um trecho do livro o senhor afirma que “eram os anos 60 e tudo assustava a Igreja Católica”, que na época era liderada pelo Papa Paulo VI. O que exatamente assustava tanto a instituição? Foram esses sustos que a fizeram apoiar o golpe?

A cúpula da Igreja era extremamente conservadora.Um comunista era visto por ela como alguém que não acreditava em Deus.Um episódio, ocorrido em Brasília em 1964 foi um exemplo emblemático. O general Assis Brasil - Chefe da Casa Militar de Jango -, em cerimônia oficial, teve o cumprimento recusado pelo monsenhor Francisco Bessa, secretário do Cardeal do Rio, Dom Jaime Câmara. E o religioso ainda virou-lhe as costas. Bessa alegou que não cumprimentaria um comunista. O mal-estar foi generalizado e escancarou a posição contrária da Igreja católica em relação ao governo progressista de João Goulart.

As manifestações que ocorreram em 2013 nas ruas do Brasil foram comparadas por muitos àquelas que ocorreram na ditadura e, para alguns, a reação violenta da polícia era um sinal de que não estamos na democracia plena. O que o senhor acha disso?

Acho que foram bem distintas. O que se pedia em 68 era o fim do regime militar. Foram protestos contra a falta de democracia e contra a repressão. Já em 2013 ninguém pedia a deposição da presidente Dilma. Eram reivindicações específicas que fazem parte do jogo democrático: se pedia a redução dos preços dos ônibus, o fim da corrupção dos políticos, a melhoria do sistema de saúde e do sistema educacional. Acho que a reação inicial violenta da polícia foi prontamente condenada, o que mostra que, embora a nossa democracia ainda não esteja 100% consolidada, está neste caminho. Uma democracia não se constrói tão rápido como as pessoas em geral imaginam.

Algumas pessoas ainda insistem em chamar a tomada do poder pelos militares de “revolução”, mas o senhor, como a maioria dos historiadores, prefere chamar de “golpe” no título do livro. Qual a diferença entre golpe e revolução?

Em 64, existia um governo legítimo, levado ao poder através de eleições livres. Vivíamos num estado democrático desde 1946 quando chegou ao fim o Estado Novo. Não havia repressão. Assim, o movimento civil-militar que derrubou João Goulart feriu a legalidade. Isto, por si só, já caracteriza um golpe. Já uma revolução é um processo em que se derruba um governo opressor, que se impõe pela força, e que chegou ao poder sem estar legitimado pela população.

Jango representava uma ‘ameaça’ comunista real ou sua aproximação de nações como a China foi usada pelos militares apenas como pretexto para justificar o golpe?


Quando Jango foi à China, numa missão diplomática, ele era ainda o vice-presidente. Na verdade, a grande justificativa para o golpe foi uma falácia construída com extrema habilidade pelas forças conservadoras, que se exacerbaram naquela conjuntura de Guerra Fria e de acentuada polarização ideológica. O que se dizia é que João Goulart era comunista e que tornaria o Brasil uma nova Cuba. Isso não era verdade. Goulart era um político de centro-esquerda com grande sensibilidade social, longe de ser um radical. Era um negociador por excelência.

Nas primeiras páginas do livro, o senhor cita a seguinte frase de Ruy Barbosa: “A pior democracia é preferível à melhor das ditaduras”. Mas, ainda assim, há quem diga que, nas décadas de 60 e 70, sob a ditadura militar, o Brasil era melhor e que a economia nacional era mais forte, chegando a crescer 10% ao ano. O senhor acha que uma ditadura pode ser justificada por uma boa situação econômica?

Nada pode justificar uma ditadura. Quando um governo prende, assassina e tortura, perde toda a credibilidade. E o fato é que o tal “milagre econômico” só beneficiou uma elite, custando caro para o grosso da população. Dados da economia entre 1964 e 1980, segundo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ), depõem contra o regime militar. Nesse período, houve um alarmante crescimento da desigualdade social. Em 1960, por exemplo, os 20% dos brasileiros mais pobres possuíam 3,9% do total da renda nacional. Duas décadas depois, em 1980, essa mesma fatia da população perdeu 1,1% da renda produzida no país, passando a concentrar apenas 2,8% dela. Em 1974, após o “milagre econômico”, paradoxalmente, o salário mínimo havia perdido metade do poder de compra de 1960.

Por: Roberto Midlej (roberto.midlej@redebahia.com.br)

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